Publicado em: 3 dez 2013

Peitando a moral: por que o topless ainda causa mal estar e é reprimido pelo estado

1386005184404-topless-rioUm par de seios à mostra, mais uma vez, gerou discórdia na orla carioca. O episódio aconteceu na Praia do Arpoador, no dia 14 do mês passado. Na ocasião, os atores Cristina Flores e Álamo Facó posavam para a campanha de divulgação da peça “Cosmocartas”, estrelada pelos dois. O sol se punha, havia pouca gente na areia. Bastou que ela tirasse a blusa para uma foto para o tempo fechar.

— Do nada, vieram três policiais, mais do que um por seio. O que falou conosco parecia assustado. Disse que havia crianças e famílias ali, e que o que eu estava fazendo era obsceno. Fiquei muito constrangida, me senti pega num delito — conta Cristina, que tem 37 anos, não costuma ir à praia e nunca havia feito topless.

Caso Cristina não houvesse acatado a ordem do policial de colocar a blusa, poderia ter passado pela mesma dor de cabeça que a vendedora Rosemeri Moura da Costa passou. Em janeiro de 2000, ela foi detida quando fazia topless na Praia da Reserva. Na época, a prisão gerou furor e trouxe de volta a discussão sobre o topless. O então prefeito Luiz Paulo Conde repudiou a ação e declarou que aquele seria o verão do topless. Houve protestos em apoio à Rosemeri (em Ipanema, um grupo de homens chegou a vestir biquínis) e o secretário de Segurança, Josias Quintal, determinou que a PM não interviesse mais em casos do tipo.

Treze anos depois, a mesma questão retorna às praias. E a lei continua não sendo clara. O crime de ato obsceno tem pena estipulada entre três meses e um ano de prisão, ou multa. Mas, para o especialista em Direito Civil Leonardo Ribeiro da Luz, o tema se encontra numa situação jurídica nebulosa.

— O nosso Código Penal data dos anos 1940. Foi feito para um outro mundo. Muito do que era ato obsceno naquela época já deixou de ser.

Há 33 anos, a novela “Água Viva” (atualmente em reprise no canal Viva), exibiu uma cena na qual as atrizes Tonia Carrero, Maria Padilha e Maria Zilda Bethlem tiravam a parte de cima do biquíni na praia e eram achacadas por banhistas e reprimidas por um guarda grosseiro.

— A cena causou polêmica na época. E, na minha opinião, poderia ter sido escrita hoje. Quem era contra o topless em 80, ainda é — conta o autor da novela, Gilberto Braga.

A atriz Maria Padilha concorda:

— O tema não envelheceu. O topless, infelizmente, não colou por aqui. Hoje, temos uma presidente mulher, mas a liberdade de ficar à vontade na praia, ainda não conquistamos.

O topless desaguou nas praias do Rio com a maré libertária de fins dos anos 70. De volta do exílio em 1979, Fernando Gabeira frequentou as areias vanguardistas de Ipanema e atribui um fundo político ao gesto:

— O topless não deixava de ser um desdobramento do movimento feminista, da decisão de rasgar o sutiã.

O historiador Luiz Antônio Simas lembra que o topless ficou restrito a uma minoria por ser um comportamento que nunca se adequou à moralidade dominante na cidade:

— É preciso quebrar o mito tropical do carioca como um libertário em relação ao corpo. É uma construção ilusória, uma imagem turística da cidade, especialmente no carnaval. O Rio nunca foi o Posto 9.

Algumas das mulheres que peitaram a moral dominante sofreram represálias. No verão de 1980, banhistas enfurecidos quase lincharam jovens que faziam topless em Ipanema. A confusão foi parar nos jornais e acabou inspirando a cena escrita por Gilberto Braga. A estilista Verônica Maieski foi uma das vítimas da revolta contra o topless:

— Foi muito violento. Homens, meninos e até outras mulheres nos cercavam gritando “joga areia na Geni”.

A polícia dispersou os linchadores — e, por incrível que pareça, assegurou o topless. Pouco depois, Vêronica deixou o Brasil. Hoje, vive na Espanha — onde o topless é corriqueiro — e é dona de uma confecção de biquínis à moda brasileira. Sim, nossos diminutos biquínis fazem sucesso por lá.

A antropóloga Mirian Goldenberg, autora de “Toda mulher é meio Leila Diniz”, ressalta que a exibição do corpo, entre nós, está mais ligada à sexualidade do que à liberdade.

— A moralidade que temos hoje é mais relacionada ao tipo de corpo que pode ser exibido. Enquanto o corpo da brasileira for tão sexualizado, ele nunca vai ser livre para ser exposto totalmente — explica Mirian, que cita a Marcha das Vadias como uma manifestação atual na qual o corpo ganha um sentido libertário. — Elas mostram os seios e dizem: “O nosso corpo nos pertence.”

Integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras, a historiadora Nataraj Trinta também vê uma sexualização excessiva na forma como o corpo feminino é encarado em nosso país tropical:

— No Brasil, a nudez, especialmente a feminina, usualmente é entendida ou como convite ou como um insulto.

Com o verão chegando, resta saber se o topless enfim verá a luz do sol livremente. Ou se, evocando o nosso maior “reacionário” Nelson Rodrigues, toda nudez ainda será castigada na orla carioca.

O Globo




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